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entropy.

Your fingers are the only fingers to ever know that sweet spot on the back of my neck – I remember how you trace your way through my shoulders and its moles, follow the bones with your fingertips, discovering valleys and mountains on my limited self. Under your touch, I ceased to be arid land – and found out that I could be infinite green pastures. Like water, your touch spread life. With it, I learned that every scar could – and should – be ground for growth.

You have always been an explorer, and, like the character demands, you were eager to outbrave this foreign, even hostile, new territory. So many people have run away from its perils. But not you. Not you. You stayed for as long as you could, holding my hands even when the meanest of storms came. You stayed even when earth-shattering earthquakes swiped right through me, ones capable of crumbling statues and reducing buildings to ashes. You were stronger than the statues. Stronger than the buildings. You stayed when the alarms rang, when they said “run. leave your belongings.”

And even now, after all this time, my brain still tries to trick me into thinking that maybe you only stayed because you didn’t have your bags packed on time. That the earthquakes came faster than you could run. But the truth is that you never prepared yourself for them. You knew they were coming, you had the time, and, earthquake after earthquake, you stayed. Storm after storm, you sat under my leaky roof in complete silence. While I ran around the house in a frantic attempt to find pots and pans to stop the water, I remember you holding my shoulders and saying

“it’s ok. let it leak. we will clean the mess in the morning.”

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the most human human of all.

Humans are, in my opinion, the funniest creatures in the animal kingdom. I can say this because I’m human myself, perhaps the most human human of all.

We have so much. We have computers and languages and feelings and dreams and thumbs. We have fully functioning thumbs, and we can grab anything we want as easily as we want. And oh how we want. That’s the funny thing about humans ‒ we never not want anything. We are never fully satisfied with what we have, and for as ungrateful as it might sound, wanting is what makes us human. It’s what makes us grow and evolve. People want money and power and luxury, they want to be on the top of the world, they want to be bigger and smaller and just altogether change, be someone else, and then there’s me ‒ the most human human of all. Me, the ultimate human being, who wants more than anyone. Me, the one who wants to embrace the whole world in these arms, me, the one who is never satisfied, me, who never stops asking, me, who wants all and everything, me‒ Me, who for the first time in her life, knows exactly what she wants.

You.

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Conto: Sob a luz das estrelas

O céu estava estrelado. Os milhares de pontinhos espalhados pela noite escura proviam a única luminosidade disponível, já que os postes de luz do campo de lacrosse estavam apagados. Lisa sentava num lugar mais escondido do campo, sobre a toalha xadrez estendida, e observava o céu pontilhado, embasbacada. O que a despertou de seus devaneios foi o farfalhar de folhas  e o barulho de galhos quebrando próximos dali. Ela se levantou em um pulo e correu se esconder atrás de uma das arquibancadas, abandonando a toalha e a cesta de pique-nique sobre ela. Ela agachou-se, os olhos atentos procurando algum movimento suspeito na noite escura, cada músculo de seu corpo tensionado. Ela tornou-se superconsciente do ruído de sua respiração, e estremeceu. Ela escutou galhos se partindo novamente.

“Andy?” sussurrou. Mais uma galho partiu-se. “Andy?”

Seu coração parecia acelerar cada vez mais, conforme o farfalhar de folhas aumentava. Ela alcançou o celular no bolso traseiro de seu jeans, pronta para ligar para os pais, quando sentiu mãos em seus ombros. Virou-se rapidamente, o rosto contorcido em uma expressão de medo, os punhos prontamente cerrados, e deu de cara com um menino de faces coradas.

“Oh, Andy!” sua cara de susto desmanchou-se em um sorriso tímido. “Você quase me matou de susto!” ela disse, dando um soquinho amigável no ombro do garoto.

“Oi, Lisa…” ele sorriu de canto. “Desculpa. Não era minha intenção.”

Eles ficaram parados, um em frente ao outro, cada qual encarando seus próprios pés. Talvez não tenha sido uma ideia muito boa me encontrar sozinha com ele, Lisa pensou. Talvez, se ela não estivesse tão focada em seus próprios sapatos, ela teria notado que o garoto já não observava o chão, mas a encarava sem pudor algum. E, talvez, se ele não estivesse tão hipnotizado pela cascata de cabelos coloridos que caia a sua frente, ele teria notado que a garota mordia o lábio inferior adoravelmente, com um olhar indeciso no rosto.

Ela levantou a cabeça em um movimento brusco, que fez com que o menino desviasse o olhar rapidamente. Lisa agarrou a mão dele e Andy notou que o rosto dela estava rubro. Ele ia perguntar-lhe  se sentia frio, mas a menina foi mais rápido e puxou-o pela mão para longe das arquibancadas.

“Venha” ela sussurrou, a voz trêmula de vergonha. “Sei de um lugar que você vai gostar.”

 Ele atravessaram o campo deserto, os dedos fragilmente entrelaçados, as palmas das mãos suando sem nem se tocarem. Lisa andava rapidamente, puxando Andy consigo, e ele dava passos largos, tentando acompanha-la, quando ela parou de repente e o peito magro dele bateu contra as costas finas dela. Ambos cambalearam um pouco, em direções opostas, desfazendo a débil conexão de seus dedos. Eles se encararam novamente; Lisa permitiu-se sustentar o olhar por alguns segundos a mais do que deveria. O olhar de Andy desviou-se para o chão atrás da garota, para a toalha vermelha e creme esticada sobre a grama escura.

“Bem” Lisa falou “É aqui.”

Ela se sentou sobre a toalha, enquanto o garoto voltava a observa-la,  e deu um tapinha no espaço ao seu lado. Andy sorriu  e sentou-se ao lado dela, sem dizer nenhuma palavra. Lisa começou a mexer na cesta de pique-nique e tirou de lá uma garrafa térmica. Abriu-a e levou-a aos lábios.

“Quer? É chá gelado.” Ela estendeu a garrafa para ele.

Ele tomou um gole. O chá era de limão, e ele sentiu um leve toque de hortelã.

“Gostou? Eu que fiz. Chá de limão é o meu preferido.”

“Está delicioso. Eu nunca pensei que limão poderia combinar tanto com hortelã.

Uma expressão estranha tomou a face da menina.

“Eu não coloquei hortelã no chá…”, ela disse.

Andy não respondeu. Apenas deu outro gole na bebida. Definitivamente tinha gosto de hortelã, mas ele resolveu não comentar nada. Estendeu a garrafa de volta para Lisa, e quando os dedos dela se fecharam em torno da garrafa, as mãos deles se tocaram novamente.

“Você está congelando!” ele exclamou, tirando a garrafa das mãos dela e colocando-a na grama. “Aqui, me dê suas mãos.”

Ele envolveu as mãos pequenas da garota nas suas. Eles ficaram numa posição meio estranha por alguns segundos, até que ela chegou mais perto, encostando o quadril no dele, e não houve mais movimento, ou mesmo barulho, a não ser pelo polegar do menino que fazia círculos suaves nas costas da mão da menina, e pelo som quase imperceptível do coração da menina que martelava fortemente contra o peito. Eles ficaram assim, sentados sobre a gramas, ela observando as estrelas enquanto sentia a pele arrepiar, e ele observando as bochechas dela coradas pelo frio que fazia.

“As estrelas” ela falou, fazendo com que ele desviasse o olhar para o céu pontilhado. “Elas não parecem sorrir para nós?”

Lisa lançou um sorriso bobo para Andy. As mãos dele ainda envolviam as dela, mesmo que as mãos dela já estivessem há muito aquecidas. Ele retribuiu o sorriso e deitou-se sobre a toalha. Ela o acompanhou e deitou-se ao lado dele. As estrelas pareciam estar especialmente brilhantes naquela noite. Andy virou-se para observar Lisa, e foi surpreendido pelo par de olhos castanhos que já o observavam. Ela estava tão perto. Os olhos dele fitaram os dela, e então sua boca. Os lábios de Lisa, que estavam tão próximos ao de Andy, eram vermelhos e convidativos, e se entreabriram como se lhe concedessem permissão para se aproximar. Em segundos, os lábios dele tocavam os dela, e ele descobriu de onde vinha o gosto de hortelã. A cabeça dele parecia estar mais leve que o resto do corpo, como se fosse desgrudar do pescoço e flutuar para longe a qualquer instante. Eles se afastaram, ainda deitados sobre a toalha, e ela sorriu. Sorriu com o corpo inteiro. Tinha acabado de descobrir algo que jamais soubera que existia, mas que agora sabia que não poderia viver sem.

Ele passou o braço em torno dos ombros de Lisa, e ela aconchegou o rosto na curva do pescoço de Andy.

“Você acha que isso é tudo?” ela falou baixinho contra o pescoço dele, causando arrepios no menino.  “Quer dizer… O universo é tão gigantesco, e nós somos tão pequenos! Você acha que nós somos tudo o que temos?”

Andy suspirou e observou as estrelas cintilantes. “É o suficiente para mim.”

Por Julia Moreno

 

 

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Conto: Entre as coxias

Está quase na hora do espetáculo. Enquanto você veste sua fantasia de bruxa, suas colegas correm de um lado para o outro do camarim, algumas ajeitando a maquiagem, outras o cabelo. Suas mãos não param de tremer. E se você errar alguma fala? E se você cair enquanto anda? E se a plateia rir de você? Você fica zonza por um instante, e precisa se apoiar na parede.

“Alguém viu meu microfone?” você diz, ao perceber que seu microfone não está na bancada, onde você o deixou mais cedo. “Tracy, você viu meu microfone?”

Tracy nega com a cabeça, e você começa a suar frio. Abre todas as gavetas embaixo da bancada, já desesperada. O microfone não está lá. Você abre a porta do camarim e sai do mesmo. Bate na porta do camarim masculino, uma mão tapando os olhos quando esta abre. “Meu microfone está aqui, por acaso?”

Samuel pega na sua mão e a tira de seu rosto. Ele a abaixa, mas continua segurando. “Alguém viu o microfone da Mel?” ele grita para dentro do camarim, mas ninguém responde. Ele te pede desculpas, e você se vira para voltar para seu próprio camarim, mas então ele te puxa de volta. A mão dele ainda segura a sua, e logo seus lábios também estão nos dele. Você fica tão surpresa com o beijo que se afasta rapidamente, e o encara.

“Vai ficar tudo bem.” Ele te lança um sorriso encorajador, e você o abraça. “Boa sorte”, ele diz, e então você se solta dele. Você vai até o bebedouro e bebe um pouco de água, tentando se acalmar. Samantha aparece o seu lado e te avisa que faltam dez minutos para o início do espetáculo, e é aí que você realmente começa a surtar. Você se apoia no bebedouro, tenta forçar seus pulmões a tragarem um pouco de oxigênio. Começa a se perguntar se foi uma boa ideia deixar a bombinha de asma na plateia com seus pais. Após alguns minutos, sua respiração normaliza e você consegue relaxar um pouquinho.

Você repete para si mesma que vai dar tudo certo, várias e várias vezes, como um mantra. E meio que a estratégia funciona, porque, aos poucos, você vai se sentindo um pouco mais segura. Você sabe todas suas falas de cor. Praticou as entradas e saídas um milhão de vezes. As chances de você cometer algum erro são mínimas, e é óbvio que a plateia não vai rir de você.

Você volta para o camarim e procura novamente o microfone, dessa vez com mais atenção. Abre todas as gavetas de novo, olha debaixo de todas as roupas jogadas sobre a bancada, quando escuta uma batida na porta. Voce grita para a pessoa entrar e então você vê a cabeça cacheada de Samuel na fresta da porta. “Era isso que você estava procurando?” Ele te estende o microfone de lapela, e você fica com vontade de chorar de alívio. Você abre mais a porta e pressiona seus lábios contra os dele. Ele sorri e você sai do camarim. Você vê Samantha acenando para você no escuro, e corre até ela. Vocês duas se posicionam lado a lado na coxia e se preparam para a entrada, e ela aperta sua mão rapidamente. Quando você finalmente pisa no palco e o foco de luz te atinge, toda sua tensão vai embora. Seus músculos finalmente relaxam e você abre seu sorriso mais sincero. Você finalmente se lembra o porquê de estar ali. O teatro é sua zona de conforto. Você não tem motivos para ficar nervosa. Afinal, o palco é seu universo particular.

Por Julia Moreno

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Resenha: Os bons segredos, de Sarah Dessen

Os bons segredos, de Sarah Dessen.
capa os bons segredos.jpg

Páginas: 403

Editora: Seguinte

Pontuação: ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

Sinopse: Sydney sempre viveu à sombra do irmão mais velho, o queridinho da família. Até que ele causa um acidente por dirigir bêbado, deixando um garoto paraplégico, e vai parar na prisão. Sem a referência do irmão, a garota muda de escola e passa a questionar seu papel dentro da família e no mundo. Então ela conhece os Chatham. Inserida no círculo caótico e acolhedor dessa família, Sydney pela primeira vez encontra pessoas que finalmente parecem enxergá-la de verdade. Com uma série de personagens inesquecíveis e descrições gastronômicas de dar água na boca, Os bons segredos conta a história de uma garota que tenta encontrar seu lugar no mundo e acaba descobrindo a amizade, o amor e uma nova família no caminho.

Recentemente, eu venho fazendo essa experiência de comprar livros sem indicação de ninguém. Eu vou à uma livraria qualquer, seleciono os livros que mais me chamaram atenção (tanto pela capa quanto pelo título), leio as sinopses desses e compro os que mais me atraíram. Confesso que já quebrei a cara algumas vezes ao fazer isso, mas não desisti na primeira decepção. Além disso, já encontrei livros extraordinários seguindo o meu “instinto”, como a série Fazendo meu filme, da Paula Pimenta, O presente do meu grande amor, da Stephanie Perkins e, principalmente, Os bons segredosda Sarah Dessen.

Pois bem, lá estava eu, em São Paulo, quando me deparei com essa obra de arte. A capa me chamou a atenção imediatamente (quer dizer, que capa maravilhosa é essa??), então eu peguei o livro e li a contra capa. Achei fascinante. Li a “orelha” dele. Só ficava melhor e melhor, e sem nem mesmo ler as primeiras páginas do livro, comprei-o. Comecei a ler no restaurante em que fui jantar, na quarta a noite. Terminei no sábado.

Eu nunca tinha lido nada da Sarah, nem tinha ouvido falar de nenhum de seus livros, mas isso não foi empecilho algum para que Os bons segredos me cativasse de primeira. A narrativa de Dessen é simples, sem muitos floreios, e ela faz descrições gastronômicas como ninguém, a ponto de me deixar com fome só por ler o livro.

Mas vamos falar sobre a estória. Sydney é uma filha exemplar. Uma maravilhosa adolescente, estudiosa e boa aluna. Mas seus pais não parecem notar nada disso. Sydney é sempre ofuscada pelo brilho de seu irmão mais velho, Peyton. Ele é dono de um charme inegável e o típico “garoto-problema”. Pouco a pouco, os pequenos delitos cometidos por Peyton evoluem e, certa madrugada, ao voltar para casa dirigindo bêbado, o menino causa um acidente que deixa um jovem paraplégico. Peyton é preso, mas Sydney parece ser a única integrante de sua família que o enxerga como o responsável pela tragédia, uma vez que seus pais o vêem como vítima (????!).

Com medo da pressão que sofreria em seu antigo colégio, onde todos a conheciam e conheciam a seu irmão, Sydney decide mudar de colégio. Certa tarde, para fugir de sua casa vazia e do fantasma de seu irmão — que apesar de não estar morto, assombra o local —, Sydney entra numa pequena pizzaria, a Seaside Pizza. Lá, conhece os Chatam, os donos do local, que a acolhem como se fosse da família. Com a ajuda dos irmãos Layla e Mac, Sydney faz amigos em seu novo colégio e sente-se cada vez mais pertencente ao caótico circulo da família.

A estória é simplesmente maravilhosa. Enquanto eu lia o livro, me senti dentro do universo de Sydney e seus amigos, como se eu tivesse estado o tempo todo ali, acompanhando-os em todos os momentos. Sério, em certo momento, minha mãe entrou no meu quarto quando eu lia e falou comigo, e eu respondi atravessado. Juro, eu percebi que estava brava com a minha mãe por conta da mãe da Sydney. Eu estava tão envolvida na estória que cheguei a confundir tudo :O Lógico que logo depois eu fui pedir desculpas pra mamis, mas não pude deixar de notar como o livro tinha mexido comigo!

Voltando à autora, tudo que tenho a dizer é que Dessen é realmente a rainha do YA (Young Adults, pra quem não sabe :D). Ela cria personagens tão carismáticos, tão reais, que é impossível não se envolver com a estória. Quem não adoraria de ter amigos como Layla, Mac e Eric?

Os bons segredos é uma leitura indicada para adolescentes e jovens adulto que gostam de romances envolventes e empolgantes e, principalmente, que gostam de estórias sobre a vida como ela é.

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Conto: A dança

Você já está se arrependendo de ter aceitado o convite para aquela festa. Sim, as músicas tocadas são boas, e aquele ponche está realmente delicioso, mas só de pensar na quantidade de episódios de The Flash e no imenso balde de pipoca que te esperam em casa, você tem vontade de ligar para um táxi imediatamente.

Você olha ao seu redor, mexendo o quadril descontraidamente, procurando por rostos conhecidos, e então você enxerga ele. Você sente seus músculos ficarem tensos e borboletas no seu estômago, mas nada impede que um sorriso abra-se imediatamente no seu rosto. Você chega perto dele, acena timidamente. Ele aproxima-se, para te dar um beijinho, mas esse beijo acaba se tornando um abraço, e esse abraço acaba tornando-se mais longo do que você esperava. Você se vê com os braços ao redor do pescoço dele, e o cheiro do perfume que ele está usando é inebriante. Tudo isso dura cerca de quinze segundos, mas parece muito mais. Enquanto os braços dele te envolvem, parece pra sempre.

Ele te pergunta se você quer dançar. Uma música lenta está tocando. Você o encara por um momento, embasbacada, mas a mão dele no seu braço a faz despertar. Você faz que sim com a cabeça, e uma das mãos dele vai para sua cintura. Você sente um pequeno impulso elétrico ali, e o local começa a formigar. Com a outra mão, ele segura a sua, e a sua mão livre vai para o ombro dele.

Vocês começam a dançar devagarinho, ainda um pouco desajeitados. Você pisa no pé dele, e pede desculpas imediatamente. Ele apenas solta uma risada rouca e te puxa para mais perto. Seus corpos estão praticamente colados, e parecem se encaixar perfeitamente.

Você tenta lembrar o nome da música que vocês estão dançando – tem certeza de que a conhece –, mas não consegue. Tenta se lembrar das horas – você olhou o relógio há dez minutos atrás –, mas é impossível. Você só consegue pensar nele, ali, bem na sua frente, o perfume dele preenchendo todo o espaço. Ninguém mais existe, só vocês dois. Seus pés movem-se num ritmo constante, tranquilo. Dançar – dançar com ele – parece tão simples, tão fácil. Tão certo. Na verdade, você nunca se sentiu tão certa em toda sua vida.

Por Julia Moreno

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Conto: Velhos tempos

Natalie acordou com uma estranha aura de felicidade a envolvendo naquela manhã de domingo. Sentou-se em sua cama, se sentindo leve, tentando puxar em sua memória o motivo de sua felicidade, e então se lembrou.

A menina levantou em um pulo, e em questão de segundos um tornado de tecidos se formava em seu quarto verde limão. Suas mãos voavam habilmente pelas camisetas e vestidos pendurados no armário, os olhos treinados procuravam o conjunto perfeito na confusão de cores, até finalmente achar a roupa que julgou digna do tão esperado reencontro.

Largando a saia florida e a blusa preta em cima das cobertas emboladas, Natalie entrou no banheiro e trancou a porta. Despiu-se, chutou os pijamas para um canto, e mergulhou debaixo da água morna do chuveiro.

Hoje é o grande dia, sim, é o grande dia!, a menina cantarolou, enquanto ensaboava a pele cor de oliva e jogava os cabelos negros como petróleo para trás. Saiu do banho e enrolou-se em uma toalha, ainda cantarolando, e voltou ao seu quarto.

[…]

Depois de horas de cremes, maquiagens, secadores e penteados, Natalie finalmente estava pronta para se vestir. Tomando cuidado para não destruir a grossa trança que prendia seus cabelos, Natalie vestiu sua saia de estampa floral e sua regata preta com pequenas pedras em torno do decote. Olhou-se no espelho. A trança negra fundia-se com sua blusa, os pequenos brilhantes em seu colo pareciam estrelas em um céu escuro, a saia destacando as poucas curvas da menina. Pela primeira vez em muito tempo, Natalie sentiu-se bonita.

Conferiu em seu celular. Uma e quarenta e sete. Sentou-se novamente em sua cama, esperando o tempo passar. Olhou novamente para a tela. Uma e cinquenta e três. Pensou na possibilidade de estar ficando louca. Pareciam que horas haviam se passado ao invés de seis minutos.

O tempo parecia estar contra ela. Quanto mais ela desejava para que ele passasse rápido, mais ele parecia desacelerar, talvez rindo da aflição da menina. Quando faltavam dez minutos para o horário combinado, Natalie não pôde mais segurar sua ansiedade e saiu do apartamento.

Com suas sapatilhas escorregando em cada degrau, Natalie desceu os três lances de escada até o térreo. Saiu do prédio e acenou para um táxi, que simplesmente a ignorou.

“Só pode estar de gozação comigo” sussurrou para si mesma, irritada, enquanto esperava por outro taxi, que não tardou a aparecer. Já sentada no banco de couro do carro, Natalie pôde finalmente respirar fundo. Tentou acalmar-se e pensar em outra coisa, mas seus pensamentos pareciam ser atraídos por ele.

O taxi finalmente estacionou em frente ao shopping. Com as mãos tremendo de ansiedade, Natalie alcançou sua carteira e pagou o motorista, enquanto descia do carro e se concentrava em firmar as pernas bambas. Entrou no shopping um pouco insegura, o coração martelando contra o peito a tal velocidade que a menina tinha medo de este tentar saltar-lhe pela boca. E se ele tivesse mudado? E se não gostasse mais dela?

Mas então ela o viu, e sentiu seu coração pular um compasso. Sentiu as mãos suarem, as pernas tremerem, sentiu borboletas em seu estômago. Porque ele estava ali, parado em frente ao cinema, do jeitinho que ela se lembrava. O jeitinho que a fascinava. Os cabelos castanhos bagunçados e molhados, a jaqueta de couro grande demais pendendo em seu corpo magro, os mesmos allstars velhos que ela havia lhe dado como presente havia quase dois anos.

Ignorando as pernas bambas, o medo da rejeição, Natalie correu até Josh e jogou seus braços em volta do pescoço do menino. Puxou-o para si, abraçando-o com tal intensidade que quase derrubou-o. Ele retribuiu o abraço, e nada mais importava. Ela afundou o rosto na curva do pescoço dele, sentindo as lágrimas caírem, aspirando seu perfume amadeirado. Agradecendo a todos os deuses, duendes, fadas ou o que quer que fosse por aquele momento.

“Eu senti tanta saudade, Natty” Josh sussurrou para ela, o queixo apoiado no topo da cabeça da menina.

“Eu também.” Respondeu. “Tanta, tanta, tanta.”

Ele puxou-a contra si ainda mais, os corpos tão unidos que, aos olhos dos que admiravam a cena, pareciam um só. Como nos velhos tempos.

Por Julia Moreno